Há sete meses o governo federal lançava o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), política que atendeu demanda do presidente Lula, mas que também aproveitou o trabalho que já vinha sendo feito no âmbito do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) na atualização da Estratégia Brasileira de IA. A urgência do tema só cresceu de lá para cá, e o ano de 2025 chegou com a promessa de uma Política Nacional de Data Centers e a intenção de avançar em um LLM brasileiro (modelo de linguagem). Em conversa com Mobile Time, o Secretário de Ciência e Tecnologia para a Transformação Digital da pasta, Henrique Miguel, conta como todos os temas estão interligados.

O PBIA foi estruturado em cinco eixos: Infraestrutura e Desenvolvimento; Difusão, Formação e Capacitação; Melhoria dos Serviços Públicos; Inovação Empresarial e Apoio ao Processo Regulatório e de Governança. As ações envolvem diversos ministérios, estando o MCTI em papel estratégico para unir política e tecnologia.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

Mobile Time – Em que pé estamos com o PBIA e como ele conversa com as prioridades do MCTI para este ano?

Henrique Miguel – Desde o lançamento do plano até o momento nós mobilizamos e articulamos os órgãos envolvidos, porque nos cinco eixos tem ações com grande envolvimento de empresas do setor privado, empresas públicas e órgãos federais de diferentes níveis. Também fizemos uma grande articulação com estados e municípios e também com vários países e organismos internacionais.

Então, o objetivo nessa primeira fase do plano, eu diria que foi um período de efetivo detalhamento das atividades necessárias à implantação e realização dessas ações, que são muito complexas.

Nós identificamos no plano pelo menos três ações em que a mobilização e a realização [depende da] definição de várias atividades que ainda serão desenvolvidas, articuladas e que vamos buscar também recursos para financiamento”.

Quais são essas três ações?

Entre as três principais está a aquisição do supercomputador. A gente tem essa ambição de ter um dos cinco maiores supercomputadores no mundo. É um desejo que traz uma atualização extremamente relevante da infraestrutura computacional para a área de pesquisa e desenvolvimento científico e também inteligência artificial. […]

Segundo, o desenvolvimento do LLM em português. Mas não é um LLM qualquer em português, é um LLM que vai incorporar as principais bases de dados públicas, esse é o diferencial. Similar ao que foi anunciado na empresa chinesa [DeepSeek] há poucas semanas, esse LLM tem que usar uma rota alternativa, porque nós não temos no momento acesso a milhares de GPUs. Na elaboração do plano, em interação com várias empresas que já seguiram esse caminho de desenvolver ou adaptar ou treinar novos LLMs, nós tomamos conhecimento das rotas alternativas que existem para aumentar o desempenho do poder computacional que você tem à disposição. Essa [ação], ligada à primeira [aquisição do supercomputador], é uma questão chave. Agora, tem as questões ‘como você desenvolve esse LLM’, ‘com quem’, ‘em parceria?’… O objetivo era também fazer parceria com países da América Latina e Caribe, países da Europa de língua portuguesa ou hispânica, para que a gente tenha então um LLM mais robusto e muito mais próximo da nossa cultura.

A ideia seria criar um LLM do zero? Parcerias público-privadas estão no radar?

Esse caminho é o que nós ainda estamos discutindo intragoverno e com outros órgãos de governo. Essa opção de iniciar a partir de um LLM básico é a opção que todo mundo segue e aconselha. A grande dificuldade é a estruturação das bases de dados que nós queremos utilizar, que são públicas, não propriamente abertas e livres, mas são dados do cidadão, da nossa cultura, são dados históricos do país.

Então, são duas questões: a rota tecnológica para o desenvolvimento e a estruturação dessas bases de dados que se constituem no terceiro grande desafio, que é a articulação das bases de dados nos vários órgãos públicos. Na minha opinião pessoal, a gente deveria permitir o acesso a essas bases para todos que queiram, sob certas condições. O treinamento também deve ser feito preservando essas bases de dados, por isso que se você usar um LLM de fora, uma nuvem de fora, você não tem garantia e certeza de onde esses essas informações e esses dados vão parar e qual será a utilidade e a finalidade deles.

Outro grande desafio é a regulação, temos o PL [projeto de lei] votado no Senado, mas há um longo caminho ainda. Isso impacta em todos os aspectos que nós mencionamos aqui.

O PL deveria entrar em algum aspecto sobre data centers?

Eu acho que não. Para os data centers, o melhor caminho é realmente uma ação de política estruturada no Estado em parceria com o setor privado que tem interesse nos investimentos na cadeia como um todo, desde fornecedores de água, energia, construções, obra física, segurança, controle, armazenamento… Há uma gama enorme de equipamentos que são necessários, sistemas contábeis e de incentivos que permitam a atualização e o crescimento dos equipamentos ao longo dos anos, a prestação de serviço aqui dentro e lá fora. […]

Quem está desenvolvendo IA não quer entrar muito nessas questões [regulatórias], ele [desenvolvedor] quer o data center operando, o serviço prestado, o acesso ao supercomputador ou o computador de grande porte e as GPUs. […] Agora, tem um vínculo direto. Cada perguntinha que a gente faz para IA, movimenta um sistema que consome energia, água e tempo de máquina.

Como está sendo a construção do plano de data centers?

Lançamos o PBIA com uma ação específica para data center, os data centers verdes. Porque o plano tem essa preocupação ambiental, social, cultural e de emprego, de corrigir a exclusão, mas também tem esse apelo de desenvolvimento tecnológico industrial. Tem um vínculo com a NIB [Nova indústria Brasil], que é a nova política industrial, porque ele disponibiliza uma infraestrutura que qualquer empresa poderia ter acesso, desde uma mera startup, ou um centro de pesquisa de alguma universidade ou centro privado, até uma grande empresa. É daí a importância dessa política para o Estado, porque ela se transforma em um programa mobilizador.

Estão sendo sinalizados [globalmente] investimentos significativos de empresas que são focadas na implantação de data center, as big techs […] E verificamos que o Brasil tem um ecossistema que interessa investidores por várias razões: questão de energia, água, terreno […]

Então, incluímos no plano esse aspecto mais ligado a um data center ambientalmente menos agressivo: buscar desenvolver tecnologia, para diminuir custos e o consumo de água e energia, buscar materiais alternativos na construção de data center para melhorar toda essa logística e infraestrutura. Esses foram os objetivos que motivaram um interesse maior da Fazenda, do MDIC e nosso aqui [do MCTI], no plano de data centers.

É uma integração de ações…

Nós [MCTI] inicialmente temos um objetivo maior, que está no PBIA, que é avançar no desenvolvimento tecnológico dos processadores e das GPUs utilizadas nos data centers. É um desafio de longo prazo, alinhado a rotas que estão sendo seguidas principalmente na Ásia, que é ter seu próprio nó de processamento, o que envolve processamento GPU, IO [Input/Output, ou entrada e saída, da comunicação do sistema] e a chamada pilha de software.

Não temos a finalidade de repetir o que a NVIDIA, a AMD, ou outros fabricantes fazem, mas buscar uma rota alternativa na qual você consiga melhorar o desempenho com menos consumo de energia e água.

Então você começa desenvolvendo o chip, a GPU, o nó, a pilha, a estrutura básica de racks, que compõem depois um computador de maior porte.

De que forma o ministério está enxergando o papel das prestadoras de conexão nesse plano de data center?

Conectividade é fundamental. Então, aliada a toda essa questão, não só de energia e água, que é o que a gente mais fala, a gente às vezes esquece da conectividade. Com o 5G, com vários links e a implantação de fibra óptica que ocorreu nos últimos anos, principalmente nos principais centros, a gente [MCTI] e as próprias empresas não vimos essa questão da conectividade como um problema.

Eles [investidores] alegam muito a questão do custo da conectividade, assim como alegam dificuldades com o custo de energia, […] mas a gente sabe que é a composição principalmente dos tributos que incidem sobre essa cadeia que afeta o preço final. Mas problema de acesso eles não viram.

Nesse ponto, de conectividade, preciso voltar um pouco no tema do banco de dados público e a construção de um LLM brasileiro, imagino que a segurança seja uma preocupação. A Telebras entra de uma forma estratégica para fornecer conexão, por ser estatal?

Sim, em todos os sentidos. A Telebras é um importante parceiro. A RNP [Rede Nacional de Ensino e Pesquisa] também. Ela tem um grande programa de cibersegurança, já interliga os nossos centros de pesquisa com alta velocidade, com baixa latência, com segurança, utilizando infraestrutura que está disponível. Há alguns links próprios, outros compartilhados e contratados. Eu diria que tanto a Telebras tem uma boa infraestrutura, como os programas em si, e os sistemas de codificação. Por exemplo, o ITI [Instituto Nacional de Tecnologia da Informação] poderia desenvolver também, eles estão integrados nesse conjunto futuro [de infraestrutura de dados] que será implementado. Nesse sentido, a articulação é basicamente do Ministério da Gestão [e da Inovação em Serviços Públicos (MGI)].

[…] Por exemplo, nós temos hoje um grande sistema público de informações, que é o gov.br. O que falta no gov.br? IA. O resto está lá. Mas e aí vem a pergunta, qual IA?

E ‘como’ implementar IA, né?

E ‘como’… Mas isso é uma questão do MGI.

Estamos falando de planos, o PBIA e a política de data centers, mas há duas coisas: prazo e recurso. Como esses dois pontos se conversam?

Uma coisa são os recursos do PBIA. Grande parte são do FNDCT [Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Isso está sobre gestão e controle dos ministérios que atuam na gestão do FNDCT. E por que alguns não iniciaram ainda? Porque tem a questão orçamentária [no macro do governo]. Mas assim que isso prossiga, essas ações que foram então já estudadas e elaboradas, vão começar a ser efetivadas.

Já a política de data center está sendo estruturada dentro de alguns passos que já foram desenvolvidos. Financiamento do BNDES, incentivos da lei de TICs, ou lei de informática. Então, por exemplo, você pode fazer um planejamento entre o ex-tarifário que desonera [parte] dos principais equipamentos, módulos que são utilizados nos data centers e ao mesmo tempo, pela lei de informática ou pela lei de TICs, os equipamentos mais significativos estão abrangidos, e começam a atrair empresas para produzir aqui.

[…] Na política [de data centers], o grande segredo é fazer esse alinhamento. Ou seja, a redução dos tributos, que é necessário, você não tem a produção ainda, mas você começa a estimular a produção aqui. É o adensamento da cadeia previsto na NIB e no plano. Esse alinhamento não é fácil.

[…] Também trabalhamos com o Ministério de Minas Energia para ver questões de quais políticas poderiam ser ajustadas para melhorar essa condição de suprimento de energia, porque falamos muito de preço e custo, mas não é só isso […] tem questões de assegurar o fornecimento contínuo e estável da energia a preço competitivo.

Quando a gente fala de recurso, tem a questão do pessoal também, certo?

Nos recursos humanos, nós vimos o seguinte: trabalho do MCTI com o MEC [Ministério da Educação]. E aí o Ministério já tem feito isso, de formar especialistas nesta área.

Mas e quando eles passam em um concurso e não querem trabalhar por conta da remuneração?

Trabalhar para o governo é outra história… Mas falando de atender os data centers que eles [empresas] perguntam para nós: ‘qual política vocês vão dar de apoio aqui para os recursos humanos que eu preciso?’. Nós recomendamos centralizar nesses polos que já têm a oferta de mão de obra especializada nessa área, […] tem polo no Ceará, em Salvador, Bahia, Recife, por exemplo…Os alunos não estão nem terminando a graduação ou a pós-graduação e já estão empregados. É um problema nacional e global. Só tem um jeito: massificar a formação. E tem um programa nosso que é de repatriar, não o pesquisador e o trabalhador, mas o skill dele. Então, ele lá [fora do país] coordena um projeto aqui que amplia a formação e capacitação. […]

No plano, o quinto desafio, na minha opinião, é recursos humanos para todo mundo: governo, empresa privada e profissional liberal. […] Aí entra a outra parte, do governo, que é a ENAP [Escola Nacional de Administração Pública], formar e atrair, porque, bem ou mal, o serviço público traz uma certa estabilidade, e tem algumas carreiras, principalmente de gestor, com um bom salário.

Para finalizar: os planos serão apenas um pontapé inicial ou a expectativa é já ver resultado até 2026?

Grande parte dessas ações iniciais do plano [de IA], essas mais críticas, até 2026 têm de ser implantadas. Mas não é porque é final de governo, é porque se você não fizer, vai perder o timing. […] O mercado está ávido por alternativas. Os investimentos, então aí. Por exemplo, tem país falando em alimentar data center com um minirreator nuclear e aqui não precisamos de nada disso. Essa política é ambiciosa, extremamente oportuna, pragmática, factível, porque vários setores que normalmente são contra entenderam a relevância e a importância, mas a gente precisa de rapidez. Quando lançarmos a política [de data centers] vai permitir que [as empresas] operem com melhores condições, ampliem suas atividades e façam novos investimentos.

[…] Nós temos algumas medidas que dependem de algumas articulações entre os ministérios. Eles [Fazenda] têm a visão financeira. Nós, do MCTI, temos a visão da tecnologia e da indústria, do adensamento de cadeia. O desafio é coordenar tudo rapidamente.

Imagem principal: secretário Henrique Miguel em entrevista. Crédito: Carolina Cruz/Mobile Time

 

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