“Pessoal, para mim já deu. Esta é a gota d’água. Ou vocês fazem algo por conta própria ou continuam com a OpenAI como uma organização sem fins lucrativos. Não vou mais financiar a OpenAI até que vocês assumam um compromisso firme de permanecer assim, ou estarei sendo apenas um tolo que está essencialmente fornecendo financiamento gratuito para vocês criarem uma startup. As discussões acabaram.”

O e-mail, enviado por Elon Musk à Sam Altman, CEO da OpenAI, em setembro de 2017, marca um dos primeiros capítulos da saga que se desenrola hoje.

Na época, a OpenAI, fundada como uma organização sem fins lucrativos com a nobre missão de garantir que a inteligência artificial beneficiasse toda a humanidade, flertava com a ideia de se tornar “com fins lucrativos”. A estrutura, desde o início, era um tanto peculiar: uma entidade sem fins lucrativos controlando uma outra com “lucros limitados”. Uma espécie de Frankenstein corporativo que, agora, parece ter saído do controle do seu criador (ou, neste caso, um dos criadores).

E onde entra Sam Altman nessa história, além de ser o alvo da ira de Musk? Bem, especula-se que, na transição completa para uma empresa com fins lucrativos, Altman, que até então não possuía ações da OpenAI, abocanharia uma fatia de 7% da “nova” organização. Considerando as recentes negociações para um investimento que elevaria o valor da OpenAI a estratosféricos 300 bilhões de dólares, ou seja, uma bagatela de 21 bilhões para o bolso do executivo.

No meio desse turbilhão de cifras bilionárias e transformações corporativas, Musk, juntamente com um grupo de investidores, formalizou uma proposta de US$ 97,4 bilhões, superando em muito as negociações anteriores da OpenAI mas que, para alguns, tem um componente estratégico não muito óbvio..

Analistas avaliam que a jogada de Musk é um complexo jogo de xadrez corporativo. A “Revlon Rule”, uma regra do direito societário de Delaware, entraria em cena, obrigando a OpenAI a considerar a oferta de Musk como qualquer outra, visando o maior valor para os… acionistas? Bem, aí é que a coisa fica nebulosa, já que a OpenAI, em sua essência, não deveria ter acionistas. Seria, então, uma manobra para forçar a OpenAI a se revelar: uma organização verdadeiramente altruísta ou apenas mais uma big tech disfarçada?

Outros veem na oferta de Musk uma mistura de motivações. Há quem diga que ele quer retomar o controle da OpenAI, da qual se afastou em 2018, supostamente por discordar da direção que a empresa estava tomando. Há também a teoria de que Musk, com sua própria empresa de IA, a xAI, estaria tentando minar um concorrente em potencial. E, claro, não podemos descartar a rivalidade pessoal com Altman, que chegou a ser chamado de “trapaceiro” por Musk em uma troca de farpas recente. Como o próprio Altman resumiu, a oferta de Musk seria uma tentativa de “atrasar” a OpenAI – posto que agora o conselho teria a obrigação fiduciária de avaliar a proposta de Musk antes de seguir com a rodada de investimentos atual.

Em meio a essa batalha de titãs da tecnologia, uma pergunta fundamental emerge: e a missão original da OpenAI? Aquela de garantir que a inteligência artificial beneficiasse a humanidade? Afinal, como conciliar os interesses de investidores com a promessa de desenvolver uma IA “segura e benéfica” para todos?

A estrutura peculiar da OpenAI, com sua intrincada teia de entidades sem fins lucrativos e “com fins lucrativos limitados”, também levanta questões sobre governança e transparência. Quem realmente manda na OpenAI? O conselho da organização sem fins lucrativos, que supostamente deveria zelar pela missão original? Ou os investidores da entidade com fins lucrativos, que, naturalmente, buscam retorno financeiro? E como garantir que os interesses desses diferentes grupos não entrem em conflito?

Muitas perguntas e poucas respostas, ao menos por enquanto. O resultado deste movimento da OpenAI, seja aceitando a proposta de Musk, seja rejeitando-a e seguindo com o plano original de captação de fundos e alteração de sua estrutura pode nos dar um vislumbre do caminho que a empresa irá trilhar no futuro e, por que não, o futuro da própria humanidade.

 

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