A moda da última semana na internet foi a produção de desenhos no estilo do estúdio japonês de animação Ghibli. Da noite para o dia as redes sociais e os aplicativos de mensageria foram inundados de versões fofinhas com olhos avantajados e brilhantes dos nossos tios, colegas de trabalho, chefes de repartição e até políticos com pouco carisma. Em seguida, veio a inevitável reflexão sobre o impacto na arte. Afinal, a humanidade se deu conta de que dispõe de uma ferramenta capaz de gerar com impressionante similaridade o estilo de um artista. Hoje é o de Hayao Miyazaki, do estúdio Ghibli, mas amanhã pode ser qualquer outro. Não tardou para alguns apressados decretarem “o fim” da arte. Será mesmo?

Não, a arte não vai acabar. Simplesmente, porque a produção artística e a apreciação da arte são necessidades intrínsecas à natureza humana. A arte alimenta a alma. Vamos continuar precisando dela, eternamente, enquanto humanos formos.

O que vai acontecer é que a arte vai driblar a tecnologia. Novas formas de arte vão surgir, inimitáveis pela tecnologia ou então incorporando a própria tecnologia. Não é a primeira vez e nem será a última que isso acontece na história da arte. O exemplo mais notório foi com o surgimento da fotografia, no século 19. A pintura até então era dominada pelo estilo realista. O que fizeram os pintores? Driblaram a tecnologia, e assim surgiu o impressionismo e, pouco depois, as correntes modernistas. Ao mesmo tempo, outros artistas se apoderaram daquela nova tecnologia e a transformaram em arte. A fotografia, que no começo tinha uma natureza quase que científica, pois era vista como um invento, como mera tecnologia, logo virou meio de expressão artística.

Com a inteligência artificial é a mesma coisa. Os artistas já estão se apoderando dela e criando obras a partir dela. Não sei que nome darão para isso, e nem como será exposto em museus, mas é inexorável que aconteça. Um exemplo é a obra digital “Conversa infinita”, em que versões digitais do cineasta Werner Herzog e do filósofo Slavoj Žižek conversam infinitamente, com as suas vozes e criando frases a partir de suas bases de conhecimento.

Interessante também notar os efeitos da tecnologia sobre diversas técnicas manuais de artesanato que foram sendo substituídas por máquinas. Aconteceu com a cerâmica, com a costura, com a carpintaria etc. Embora os produtos de diversas técnicas hoje possam ser produzidos rapidamente por gente sem nenhuma habilidade manual – em alguns casos, basta uma impressora 3D –, esses profissionais não deixaram de existir. Talvez estejam em menor número, mas muita gente valoriza o seu trabalho. Existe um efeito contrário, em oposição à industrialização e à produção em massa, de valorização daquilo que é artesanal, daquilo que é feito à mão. Os exemplos são inúmeros, chegando até ao boom das cervejarias artesanais.

Aposto, portanto, que algo parecido pode acontecer em reação ao avanço da inteligência artificial. Talvez surja, não muito distante daqui, produtos e obras de arte apresentados ao público com o rótulo não de “feito à mão”, mas “feito por humanos”.

P.S.: O impacto da tecnologia, especialmente da IA, sobre a arte é tema recorrente de colunas minhas. Recomendo meus dois artigos anteriores sobre esse tópico: 1) A falsa dicotomia entre IA e arte; 2) A irreprodutibilidade artificial da inquietude artística.

imagem: Parte da redação do Mobile Time na versão “estúdio Ghibli”: Fernando Paiva, Caio Cesar Pereira e Henrique Medeiros

 

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