O tarifaço, como está sendo chamado o aumento de tarifas de importação anunciado pelo presidente norte-americano Donald Trump na última quarta-feira, 2, poderá ter impactos sobre a indústria brasileira de smartphones, prevêem especialistas ouvidos por Mobile Time. Os principais desafios serão a elevação dos preços de componentes e o aumento da competição com os importados, mas há quem enxergue também oportunidades.
As novas tarifas ficaram altas especialmente para países asiáticos, que concentram boa parte da produção mundial de smartphones, chipsets e outros componentes eletrônicos, como China (54%), Taiwan (34%), Vietnã (46%) e Índia (26%). O Brasil ficou no grupo com a tarifa mais baixa: 10%. À primeira vista, essa diferença tarifária parece uma oportunidade para a indústria nacional: fábricas brasileiras de smartphones poderiam aumentar suas exportações para atender o mercado norte-americano, se aproveitando da tarifa mais baixa.
“Essa configuração coloca o País em igualdade de condições com outros concorrentes, e pode abrir portas para um aumento das exportações de produtos do setor elétrico e eletrônico para os EUA”, concorda a Abinee, entidade que representa o setor, em nota enviada a este noticiário.
Porém, não é tão simples assim. O custo Brasil, as incertezas político-econômicas do país e a imprevisibilidade do atual governo norte-americano, que altera as tarifas ao sabor do vento, dificultam a tomada de decisões de médio e longo prazos que requeiram investimento alto.
“Acho que isso (o tarifaço dos EUA) pode mudar um pouco a dinâmica, mas acredito que é pouco provável a possibilidade de exportarmos (celulares) do Brasil. Mas se mudar algo em relação aos incentivos (governamentais), nós temos capacidade de atender a outros países”, comenta Marcelo Perin, diretor comercial de mobile da TCL.
Reinaldo Sakis, diretor de pesquisa e consultoria da IDC, lembra que o Brasil traz desafios logísticos que encarecem a produção local, como enchentes e secas, que podem atrasar a chegada de insumos e o escoamento de produtos.
Tarifaço não atrairá novas fábricas para o Brasil
São essas e outras dificuldades que fazem com que especialistas sejam céticos de que o tarifaço de Trump possa atrair novos fabricantes de smartphones para o Brasil, como Xiaomi e Oppo.
“Não creio que isso aconteça em função do choque tarifário dos EUA. Creio que o mercado interno brasileiro ainda é o principal objetivo dessas empresas, e somente iriam considerar produção local se realmente a demanda brasileira crescesse. A escala que essas empresas têm em suas fábricas na Ásia é muito maior do que o que temos condições de ter por aqui, e eles ainda teriam que importar muitos componentes, por isso não vejo como isso possa ser feito por aqui”, avalia Ari Lopes, gerente para as Américas de mercados de telecom da Omdia.
Também não será por causa do tarifaço de Trump que o Brasil atrairá fabricantes de chipsets, explica Sakis, da IDC: “As fábricas de semicondutores são de bilhões e não de centenas de milhões de dólares. E tem um motivo pelo qual as fábricas de componentes se concentraram na Ásia: lá tinha mais engenheiros em menor custo. Achar que alguém traria uma planta para cá, com um nível de incerteza política que temos, com risco de uma mudança de governo que pode alterar algum rumo… A única certeza que temos é em Manaus, que realmente está consolidado o incentivo fiscal por 30 anos. De resto, acho muito difícil”.
Competição e preços
O mais provável, por outro lado, é que os desafios para a indústria nacional aumentem. Um dos impactos é que os países mais afetados pelo tarifaço vão procurar outros mercados para escoar sua produção, prevê Lopes, da Omdia. O Brasil poderá ser um dos alvos. Ou seja, a competição com smartphones importados vai aumentar.
Outro impacto do tarifaço é que provavelmente os preços dos componentes vão subir, e a maior parte da produção local de smartphones depende de insumos importados. Alguns deles inclusive passam antes por Miami, o que os tornará mais caros ainda, em razão das novas tarifas norte-americanas.
“Os preços vão subir. Talvez menos do que lá (nos EUA). A gente já tem uma diferença muito grande e os preços sem dúvida vão aumentar. Os componentes ficarão mais caros, logo, a produção local ficará mais cara”, acredita Sakis, da IDC.
Talvez por causa desses riscos a Abinee pontue em sua nota: “a situação atual coloca o Brasil em um momento único para utilizar medidas de salvaguarda, a fim de proteger a indústria local, estimular a competitividade e, ao mesmo tempo, consolidar-se como um destino atrativo para investimentos produtivos.” E seu presidente, Humberto Barbato, conclui: “Se não baixarmos o custo Brasil, nós vamos nadar e morrer na praia.”
A ilustração no alto foi produzida por Mobile Time com IA.